As 7 maiores dificuldades de meditar – Mindfulness Psychology

“Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta” (Jung)

Olá amigos!

A pergunta: “Por que meditar (Mindfulness) é tão difícil?” é uma pergunta capciosa porque ela pressupõe que meditar, ou seja, praticar uma técnica de atenção plena não é fácil. Na verdade, é uma pegadinha tão grande como quem acha que meditar é não fazer nada…

Mas gostaria de responder a esta questão neste texto para mostrar os benefícios de estar e ser mais mindful, ou seja, ter plena atenção do que está acontecendo no momento presente. Portanto, vou mencionar algumas “dificuldades”, também com o objetivo de superar alguns mitos.

O começo das técnicas de mindfulness

Para quem não sabe, as técnicas de Minfulness tem sido utilizadas já há algumas décadas dento da psicologia e da medicina. Então, em primeiro lugar, é importante desfazer certos preconceitos. Apesar de a origem ser budista (na verdade, é até muito anterior ao Buda Gautama), não há nada de religioso em meditar.

Em certo sentido, podemos até questionar em que medida o budismo deve ou não ser considerado uma religião. Afinal, Buda não quer dizer Deus e sim apenas “aquele que despertou”.

De toda forma, para não ter nenhum tipo de sectarismo, autores como John Kabat-Zinn retiraram toda e qualquer conotação religiosa das práticas, assim, as instruções para realizar as técnicas não fazem referência à sua origem histórica.

A técnica mais conhecida é sentar-se confortavelmente e prestar atenção na respiração. Na respiração porque a respiração é uma ponte entre os dois tipos de sistema nervoso, o sistema nervoso voluntário e autônomo. Em outras palavras, a respiração é uma função que conseguimos controlar conscientemente e uma função que também não está sob controle consciente. Na maior parte do tempo, nem notamos que estamos respirando ou como estamos respirando.

Outras instruções simples podem ser dadas: “se a sua atenção for para um pensamento, sentimentos ou outra sensação física, retorne a atenção para a respiração tão logo perceber, tranquilamente”.

Por estas instruções simples, é possível ver que não se trata de não fazer nada. Claro, não estamos fazendo alguma coisa no sentido usual, de agir no mundo, mas estamos prestando atenção ao que acontece na nossa psique, dentro de nós.

Principais dificuldades de praticar as técnicas de Mindfulness

Se os dois principais preconceitos foram superados (o preconceito de que se trata de uma prática religiosa com a qual não se concorda e o preconceito de que se trata de não fazer nada), e a as práticas começam a ser realizadas, algumas das seguintes situações podem surgir:

– ter que lidar com questões não resolvidas;

– assumir responsabilidades;

– sair da posição de vítima;

– mudar hábitos mentais e comportamentais negativos;

– turbilhões emocionais;

– sono;

– dores físicas.

Um grande amigo meu, que me apresentou o vipassana, disse certa vez o seguinte: “Imagine uma pessoa muito especial. Pode ser a pessoa que você mais ama na vida ou a pessoa que você mais respeita e admira. Se você for católico, pode ser o Papa. Se você for  budista, pode ser o Dalai Lama. Se você for evangélico, pode ser o pastor mais reconhecido. Enfim, imagine esta pessoa. Você não faria de tudo para poder ficar próximo desta pessoa especial por horas e horas?

Então, é curioso, porque no fundo, as pessoas não fazem 1 hora de meditação porque elas não se admiram tanto quanto admiram estas pessoas”.

É uma avaliação muito precisa. Como salientou Jung em seu livro Psicologia da Religião Oriental e Ocidental, nós, ocidentais, temos a tendência de colocar a “salvação” fora, ou seja, acreditamos que algo ou alguém vai nos ajudar, amar, trazer felicidade. A música Time, do Pink Floyd, diz: “Esperando por algo ou alguém para lhe mostrar o caminho” (Waiting for someone ou something to show you the way).

Além disso, esta avaliação acurada nos mostra que não queremos nos ver. Ao menos, queremos nos ver menos do que queremos ver outras pessoas que consideramos importantes. O que demonstra igualmente o nível de nossa autoestima e autocompaixão.

1) Lidar com questões não resolvidas

A primeira dificuldade é fácil de observar. Se você começa a prestar atenção na sua respiração, notará que muito rápido sua atenção vai ir até um pensamento, sentimento ou outra sensação. Lembro um dia, logo quando comecei: tive dificuldade para manter o foco porque antes tinha tido um problema ao fazer o meu óculos. A atendente tinha anotado que o meu grau era de hipermetropia e não de miopia. Um problema sem maiores consequências, mas que tinha me irritado.

De forma que logo que você começa a voltar a atenção para a respiração, surge um complexo – se quisermos utilizar a terminologia da psicologia analítica. Um complexo é um grupo de palavras ou imagens com emoções vinculadas. No exemplo acima, óculos, ótica, erro e as imagens na lembrança estavam ligadas a irritação.

Este é um pequeno complexo que realmente é pequeno. Mas, à medida em que vamos continuando a técnica, temos que lidar com questões mais profundas e cada vez mais profundas porque elas inevitavelmente vão aparecer. Não há como fugir e, talvez por isso, muitas e muitas pessoas tenham dificuldade para continuar com as técnicas.

2) Assumir responsabilidades

Assumir responsabilidades é uma ideia ampla, com muitas conotações. Em resumo, podemos dizer que passamos a compreender que o que sentimos e pensamos é nossa responsabilidade. Tudo acontece dentro da nossa psique e, por mais que certos estímulos aconteçam concomitantemente, em última análise, a responsabilidade é nossa e não das situações ou das outras pessoas.

Um exemplo. Digamos que você esteja completamente apaixonado. É um dia muito bonito e tudo está dando certo. Porém, alguém te diz algo muito desagradável. O dizer, em geral, ia te deixar para baixo, mas você está tão bem que não liga. E volta a continuar se sentindo bem e apaixonado.

Isto demonstra que o nosso modo de reação nunca é estímulo-resposta automática. Ou melhor, não precisa ser.

Pode ser mais simples e fácil atribuir a culpa das nossas infelicidades aos outros. Só que é um beco sem saída: não conseguimos controlar o comportamento dos outros e, se as pessoas não fazem o que queremos, e se não percebemos que o nosso estado mental e emocional é nossa responsabilidade, daremos todo o nosso bem-estar ao acaso.

Eu posso ficar um dia, uma semana inteira irritado com a atendente da ótica e posso justificar a minha irritação pelo seu comportamento. Mas a verdade é que ela não tem poder para me fazer sentir mal. Sou eu quem atribuo a culpa a ela.

3) Sair da posição de vítima

Esta outra dificuldade se relaciona com a questão de assumir responsabilidades. Com a auto-observação aumentada pelas técnicas da atenção plena passamos a ver como é sem sentido ficar se colocando na posição de vítima para conseguir a consideração das outras pessoas, piedade ou o que for. É um jogo sem sentido.

Sabe este tipo de pensamento? “Você fez isso para mim, logo, estou mal”. “Você disse isso para mim, por isso, estou infeliz…com raiva…triste…chateado…etc”

Quando as técnicas começam a ser realizadas com mais frequência, a tendência é cada vez mais deixar a posição de vítima. E muitas pessoas relutam contra isso, ou por ser uma atitude constante, um hábito ou por ser uma orientação frente aos problemas em seus relacionamentos.

Mas, como logo fica claro, ao deixar esta posição só surgem benefícios.

4) Mudar hábitos mentais e comportamentais

Um outro empecilho pode ser o medo de mudar os hábitos mentais e comportamentais. Na medida em que, com o tempo, há um aprofundamento – um olhar mais cuidadoso sobre si mesmo – é natural que mudanças comecem a acontecer. E, embora sejam mudanças positivas, existe a possibilidade de surgirem receios e dúvidas sobre a profundidade da mudança. O que pode ser resumido na frase: “se eu perder os meus (maus) hábitos, quem serei eu?”

A ideia que está por trás é que o eu ou a personalidade é uma entidade fixa, estável, permanente. Mas sabemos que este não é o caso. Se refletirmos no longo prazo, veremos que a vida inteira estamos mudando. Se não mudássemos, agiríamos ainda como um bebê.

5) Turbilhões emocionais

Existem dias e dias. Em certos dias, estamos com a mente tranquila e pacífica, enquanto em outros dias passamos por turbilhões, tempestades, terremotos. Quando não estamos nos sentindo bem, quando estamos com raiva, com medo, com tristeza ou o que for, é muito comum justificar e não querer fazer a meditação.

O curioso é que é exatamente nestes momentos que mais precisamos…

Com o tempo, este tipo de dificuldade é superada pela compreensão de que as técnicas podem nos fazer passar por estes turbilhões e tempestades de uma maneira mais fácil.

6) Sono

Em certos momentos, as técnicas da Mindfulness Psychology podem levar a um rebaixamento do nível mental, ou seja, as ondas cerebrais mudam de frequência – o que pode ser sentido como sonolência e até levar ao sono.

Mas, se não dormirmos, poderemos começar a ver conteúdos dos quais tínhamos esquecido como sonhos e lembranças mais longínquas. Claro que o objetivo não é este, entretanto, é até certo ponto inevitável o surgimento de tais formas.

7) Dores físicas

E, por fim, é muito comum ter que lidar com as dores físicas: dor na coluna, dor de cabeça, dor nas pernas. Óbvio que o objetivo não é também provocar dor através das posições básicas (sentado, deitado, andando, em pé) mas possibilitar a percepção de como lidamos com a dor ou com o desconforto.

Não raro, aumentamos a dor física ao colocar sobre ela as nossas dores emocionais: irritação, raiva, aversão, etc.

Conclusão

Para concluir, gostaria de deixar para reflexão o pensamento de Jung: “Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta”.

Publicado por

Felipe de Souza

Psicólogo (CRP 04/25443), Mestre (UFSJ), Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness (Unifesp), Coach e Presidente do Instituto Felipe de Souza. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Vídeos e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma sessão de Orientação Profissional, de Relacionamentos ou a Supervisão Online com o Psicólogo Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube!

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